23 de outubro de 2010

No devido lugar

 Ainda com as mãos trêmulas acendeu o candeeiro, destrancou a pesada porta de ferro, e com cuidado desceu a escada que dava no calabouço.

De frente para a porta, apoiou o candeeiro no chão, o pequeno objeto que carregava consigo e tirou a chave do bolso de seu longo vestido.

Era um lugar abandonado, frio, escuro e empoeirado. Teve medo de não conseguir abrir a porta. Há pelo menos uns dez anos que ninguém botava os pés ali.

Não imaginava lugar melhor para colocar o pequeno objeto. Colocou a chave na fechadura. Girou para um lado, e nada. Tentou girar para o outro. Nada. Insistiu, e ao girar mais uma vez a chave escutou um rangido. A velha fechadura cedia. Depois de uma pequena batalha: ela, chave e fechadura, conseguiu abrir a porta.

O cômodo era minúsculo. Impossível imaginar que em épocas passadas, pessoas eram trancafiadas ali. Um pequeno banco de madeira e escuridão.

Pegou o candeeiro e encaminhou-se para dentro do cômodo e depositou sobre o banco, o pequeno objeto. Virou-se, trancou a porta e começou o caminho de volta para o castelo. Sem adeus, sem até logo, sem até breve, sem lenço branco.

E o pequeno objeto? Uma caixa.

Dentro da caixa? Ela guardara dentro da caixa, todas as más lembranças e decidira que daquele dia em diante, elas ficariam lá presas e, assim, com o passar dos anos, seriam esquecidas.

E a chave do calabouço?

Fundiu e pediu ao ourives, do castelo que transformasse em um trevo de quatro folhas. 

"Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas."
(Mário Quintana)

37 comentários:

Wanderley Elian Lima disse...

Olá Isadora
Como texto é lindo, mas apagar as lembranças não é nada fácil, muitas delas nos acompanham por toda vida.
Bjux

Tatiana disse...

Oi Isa...
Na caixa onde guardo as más lembranças de tempo em tempo eu faço uma faxina... deixando lugar livre para lembranças melhores!
Adorei o seu texto!
Um beijo carinhoso para você!

Fernanda disse...

Me levanto e aplaudo.
Lindo!

Lis. disse...

É bom sempre deixarmos lá para trás
As lembranças que não nos fazem bem
Deixando presente apenas o que amás
Com bastante paz e alegria também.

Lis.

VaneZa disse...

Acho que seria bom todos seguirmos esse exemplo... deixar as más lembranças bem longe de nós. Mas é difícil... muito difícil.

BeijoZZz

Barbie Girl disse...

Esquecer as lembranças ruins é um exercício diário na minha vida, mas eu tento sabe?! Porque todos os dias temos a chance de recomeçar, de tentar, de plantar sementes novas, basta querer!

beijos e bom fim de semana!

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Texto lindo!
muito bem escrito.
E apagar as marcas do passado, ah, como é complicado!

uma boa sexta!

AC disse...

As más lembranças podem ser guardadas, mas nunca enterradas. Ainda bem, pois assim, com elas por perto, teremos sempre a noção do caminho que não queremos seguir.

beijo :)

Socorro Melo disse...

Isadora,

Gostei da criatividade! O suspense ia aumentando à medida que lia, e mais me interessava, imaginando o que pudesse conter no pequeno embrulho. E fiquei feliz com o desfecho, acho que é isso mesmo que devemos fazer com as más lembranças, fechá-las num calabouço e perder a chave. Parabéns!

Beijos
Socorro Melo

Uni ver sos disse...

Que texto incrivel, amiga!

A figura é forte e mostra com exatidão o que deveríamos fazer com as más lembranças...
mas nem tudo é simples assim,
falo por mim mesma, minha mente tem maneiras de manipular a abertura de portas instransponíveis,

acredito que com o tempo vamos aprendendo a selecionar melhor nossas lembranças, e nos apegando apenas com o que vale à pena..

uma reflexão e tanta!

Beijos no core,

Ξ ѕ t є я ☆

Cacá disse...

Se eu pudesse viveria uma Pandora do lado avesso. Lindo, Isadora. Abração. paz e bem

Daniel Savio disse...

Bonito o texto, mas infelizmente, estas mesmas lembranças negativas vão existir em nós (por mais que que façamos para esquece-las), mas podemos fazer que a existência delas se tornem o nosso ouro...

Fique com Deus, menina Isadora.
Um abraço.

Maria Célia disse...

OI Isa
Muito bom seu texto, aliás como todos que já li.
Parabéns!
Beijo.

diariodumapsi disse...

Ei Isa !
Adorei o texto, perfeito.
Extremamente simbólico. Devemos mesmo deixar para trás as lembranças ruins.
.
Gd beijo
Bom final de semana

welze disse...

bom ter cada um a sua, uma caixa onde possa trancafiar seus desalentos e decepções. Nada melhor que esquece-los, e estando eles guardados em lugar incerto e não sabido ou que não se ve a muiúde, mais fácil de esquecer. Bom final de semana

Suziley disse...

Que fiquem sempre as boas lembranças. Das ruins só nos fiquem os ensinamentos. Em todo o mais que sejam "jogadas"...hehe!! Belo texto, Isadora!! Bom final de semana, beijos, boa noite :)

Sil.. disse...

Isa, querida!

Eu sou um ser de lembranças!
Mas só das boas, porque essas não se apagam jamais!

Um abração meu!

Miguel disse...

Bom dia!

"Achar que o mundo não tem um criador é o mesmo que afirmar que um dicionário é o resultado de uma explosão numa tipografia."

Benjamin Franklin)

Que seu dia seja de luz.

Ótimo fim de semana pra vc.

Misturação - Ana Karla disse...

Apagar lembranças ruins é tudo que gostaria, mas concordo com os demais que não é tão fácil, porém temos que tentar.
Que texto, viu!
Xerosssssss

Bordados e Retalhos disse...

Isa e eu que estou feliz até agora por tere falado com vc. Adorei, adorei, adorei!!!!Segunda de manh~~a vou já providenciar minhas passagens para o Rio. Bjs

Kelly Soares disse...

Isa,

Linda história, como sempre.
Adorei! Principalmente pelo destino da chave =)

Beijos
Kelly

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Isadora, então...aquela animação lá foi feita a seis mãos, o poema é meu, a música é do Edu e o desenho do Cacinho...
As boas lembranças devem ficar guardadadas na alma, as não muito boas a gente procura esquecer ou ao menos deixar em algum canto...
E seguir em frente...sem xurumelas, sem choro e e sem vela
Tudo é aprendizado...
Um abraço na alma
beijo

Gilmar disse...

O mais difícil é tomar a decisão de transpor a porta e enfiar, dentro de uma caixa inviolável, as lembranças de tantas dores e lágrimas, largando-a no calabouço.

Algumas dessas lembranças são sim, extirpadas. Outras, no entanto, ainda nos visitam em madrugadas frias, onde nem mesmo a lua nos faz companhia. Cutucam as feridas, não para doer mais, apenas para nos lembrar que estão vivas e livres de nossas vontades.

É uma questão de aprender... e de brigar, intensamente, para que a vontade não vá embora. E, com o tempo, senhor do aprendizado, quem sabe, aos poucos, vamos lançando ao calabouço as lembranças que doem.

Meu carinho, Isadora!

Eu, ΞĐU disse...

Olá, Isa... tudo bem?
Olha, estou passando aqui pra dizer que gostei muito do seu Blog.
Parabéns pelo trabalho, pelo bom gosto, conteúdo e por sua sensibilidade.
Estou seguindo.
Saudações,
EDU (http://edurjedu.blogspot.com)

Denise disse...

Estratégia perfeita, texto mobilizador, leitura gostosa. Resumindo, adorei!
Bom domingo, querida.
Bjos

Silvana Nunes .'. disse...

Vixe, apagar lembranças é complicado.
Belo texto.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... deseja uma boa semana para você.
Saudações Educacionais !

VejaBlog - Seleção dos Melhores Blogs/Sites do Brasil! - disse...

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Parabéns pelo seu Blog!!!
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Um forte abraço,
Dário Dutra

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Astrid Annabelle disse...

Bom dia Isa!
Tirei o domingo para visitar os amigos.
Texto muito bonito este que postou.
Eu costumo agradecer por tudo o que vivi.
Assim fica bem mais fácil administrar o que não nos serve mais.
E parabéns por ter sido selecionada pelo
VejaBlog! Muito merecido!
Um beijo grande para um excelente dia!
Astrid Annabelle

Teresa Cristina disse...

Que as lembranças negativas possam ser transformadas em algo bom mesmo para não nos impedirem de seguir em frente! Adoreiii.. Bjuss

EDER RIBEIRO disse...

Desta tua parábola posso dizer que esquecer as más lembrança é essencial para tirarmos do coração as tristezas. Bjos, querida Isa.

Manuela Freitas disse...

Muito interessante o teu texto que vai criando expectativas! Que vai na caixinha? A ideia de colocarmos os desgostos da nossa vida numa caixa num sítio bem fundo, seria o ideal, mas não é fácil!
Mesmo com tudo dentro de nós é sempre bom ter energia para recomeçar e não ficar presa ao que já passou e não se vai repetir, não é?
Beijinhos,
Manú

pensandoemfamilia disse...

Que beleza! Mostraaa neste conto um importante ritual , o da transformação.
bjs,

Cantinho She disse...

Queridonaaaaa eu simplesmente amei!
Parabéns! E parabéns também pela presença da Vej@blog!
Beijo, beijo amiga!
She

ENCONTRO COM A POESIA disse...

OLA QUERIDA VIM TE CONHECER ADORO MARIO QUINTANA,VIN TE CONVIDAR PRA VISITAR MEU BLOG UM BJO!

Irene Moreira disse...

Mário Quintana sabia das coisas. Existe coisa melhor do que conseguir apagar para sempre as más lembranças de nossas vidas?
Vamos lutar para coloc-a~las no devido lugar.

Beijos

VELOSO disse...

Isa belo conto que fechou com uma chave de Quintana, PARABENS! Que bom que gostou do conto lá no Baú e no Inverso a Aymé ficou muito feliz e empolgada acho que vamos completar uma trilogia! Isso que eu gosto e busco com o blog essa troca de energia gostosa! Um abraço e fica com Deus!

Espaço Aberto disse...

Estamos com uma nova proposta em nosso Blog.
Desta vez queremos a sua ajuda para a construção de um Conto Coletivo.
Venha participar, sua ajuda será fundamental para que a estória tenha sequência.
Um abraço carinhoso