Ainda com as mãos trêmulas acendeu o candeeiro, destrancou a pesada porta de ferro, e com cuidado desceu a escada que dava no calabouço.
De frente para a porta, apoiou o candeeiro no chão, o pequeno objeto que carregava consigo e tirou a chave do bolso de seu longo vestido.
Era um lugar abandonado, frio, escuro e empoeirado. Teve medo de não conseguir abrir a porta. Há pelo menos uns dez anos que ninguém botava os pés ali.
Não imaginava lugar melhor para colocar o pequeno objeto. Colocou a chave na fechadura. Girou para um lado, e nada. Tentou girar para o outro. Nada. Insistiu, e ao girar mais uma vez a chave escutou um rangido. A velha fechadura cedia. Depois de uma pequena batalha: ela, chave e fechadura, conseguiu abrir a porta.
O cômodo era minúsculo. Impossível imaginar que em épocas passadas, pessoas eram trancafiadas ali. Um pequeno banco de madeira e escuridão.
Pegou o candeeiro e encaminhou-se para dentro do cômodo e depositou sobre o banco, o pequeno objeto. Virou-se, trancou a porta e começou o caminho de volta para o castelo. Sem adeus, sem até logo, sem até breve, sem lenço branco.
E o pequeno objeto? Uma caixa.
Dentro da caixa? Ela guardara dentro da caixa, todas as más lembranças e decidira que daquele dia em diante, elas ficariam lá presas e, assim, com o passar dos anos, seriam esquecidas.
E a chave do calabouço?
Fundiu e pediu ao ourives, do castelo que transformasse em um trevo de quatro folhas.
"Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas."
(Mário Quintana)